Por Miguel Rios
Torcedor de organizada violenta sai de casa se achando com aquela camisa. Mas enquanto é apenas um, a bola não é tanta. Vai se somando no caminho e o um viram todos e todos viram um. Aí sim ele cresce. Não é mais o zé-ruela que ninguém dá bola. É o cara que veste uma farda assustadora no meio da boiada que “mete moral”.
O mais importante é “meter moral”. Ser alguém, mesmo que seja um alguém odiado. Ele não se importa. Quanto mais raiva despertar, mais se satisfaz. Quanto mais faz a galera tremer, mais respeito considera conquistado.
Ele é aquele garoto, que virou rapaz, que se tornou homem com autoestima lá embaixo. Não teve força para vencer, para escapar do destino traçado. Embarcou na onda de que “botar pra arrepiar” na arquibancada era se impor ao mundo. Acreditou, nem questionou.
De pouco amor ao outro, veio e foi acumulando valores distorcidos. O bom, na cabeça dele, é sempre se dar bem, é passar por cima de qualquer um porque é tudo otário. Bom é não ter pena. Bom é mostrar que “eu sou o cara”.
Meio que perde a identidade. O nome de batismo dá lugar a nome de guerra e sobrenome da organizada. Morrem um João, um Carlos, um Francisco. Nascem um Lapada da Jovem, um Monstro da Fanáutico, um Fera da Inferno Coral.
Morre João que era menino de comunidade carente, mas queria ser bombeiro, que tirava foto de sorriso aberto, curtia banho de mangueira. Morre Carlos, que era Carlinhos das notas boas na escola do bairro, que o pai sonhava vê-lo com canudo na mão, que não se conforma, nem sabe explicar onde se deu o desvio do filho. Morre Francisco, Chiquito dançarino, que aos 7 anos sabia imitar Michael Jackson, que todo mundo apostava ia ser artista, daqueles de televisão.
E onde deu errado? Onde eles perderam o amor-próprio? Não dá para nivelar pelo senso comum. Não dá para dizer que todos têm instinto ruim.
Aquela grossa corrente que segue escoltada pela cavalaria não é composta por uma mesma raça, mesma classe social, mesmo nível de estudo, mesma criação, mesmo desamor.
É mista. Há os revoltados com a vida desde que não puderam comprar um tênis, há os que nunca tiveram sentimentos pelo semelhante, os que se perderam no caminho, os que foram desde cedo tratados debaixo de porrada, os que até tiveram conforto e facilidades financeiras, mas resolveram, por raiva ou pela futilidade, aloprar.
O que se tem é o fascínio simbólico por uma camisa. Fato. Não pela tradicional do time para o qual dizem torcer, a que eles consideram a dos fracos, mas pela que lhes foi apresentada como uma armadura de guerra, de exército, de terrorismo, e a qual juraram “honrar” acima de tudo.
Honra retorcida. Vem atrelada a ódio mortal por quem escolheu uma camisa contrária, a ferocidade total contra quem nem se conhece, quem nada tem a ver com o time oponente, com o futebol.
Camisa de trágica proposta. Use-a e cause repulsa, bote o terror, apavore.
Torcedor de organizada está ali para seguir tais regras. Ninguém entra naquele meio na inocência. Conhece-se bem a fama. Todo mundo já viu o quebra-quebra na cidade, os assaltos, viu ambulantes perderem seus produtos, homens, mulheres e crianças correrem em pânico, pedras atiradas contra ônibus, depredação, ferimentos e morte.
Pode-se até entrar no grupo um pouco quieto a princípio, desconfiado e acanhado, reticente em sair logo baixando a mão. Mas o contágio não demora. A empolgação da massa inebria. Ela corrompe e carrega.
Torcida organizada violenta é sim organizada. Organização rudimentar, sem grandes planos, sem cabeças altamente pensantes. Mas eficiente nos objetivos: massacrar, vandalizar, se sentir o máximo.
Até os consegue. Não só pela impunidade judicial, a certeza de pagar pouco, no máximo o afastamento do estádio e um cursinho de boa maneiras. Não só pelo apoio velado dos dirigentes. Ajudam, mas são fatores menores.
É o nada na alma que empurra. O “tô nem aí”, a perspectiva zero de vida. Que venham a porradaria, os cassetetes, o gás de pimenta, o Cotel, até a morte. Vale tudo pelo único lucro: sair na mídia, mostrar a camisa e aumentar a aura de terror.
Sem a camisa, ele morga. Não por completo, mantém força física, mas o impacto é outro, a percepção de poder também. Não há mais Jovem, Inferno, Fanáutico, há só um cara, descaracterizado, sem a identidade que lhe dá valentia. E gritos como “ninguém vai me segurar, nem a PM” e “Uh! Vai morrer!” se calam, no mínimo, amenizam. Agora, fora do estádio nada impede de se vestir de novo.
*Miguel Rios é editor-assistente do caderno Mais Esportes, do Jornal do Commercio