Náutico e Sport não precisam dos males que vêm para o bem

Por Cristiano Ramos*

Brasileiro repete uns ditados que servem apenas para acomodação, são frutos de uma sociedade extremamente desigual, onde era oportuno para alguns poucos que a maioria
aceitasse a situação em que vivia. Quem nunca ouviu alguém dizer, como se fosse uma qualidade, que “não faz questão por nada”? Não fazer questão não é sinônimo de humildade, mas de descaso, de alienação.

No caso do futebol, usa-se bastante o lugar-comum “há males que vêm pra bem”. Principalmente para amenizar sofrimento, para tentar tirar algo de bom quando nossos times cometem algum papelão, como fizeram Náutico e Sport na Copa do Brasil, tomando goleadas de Fortaleza e Paysandu.

Para o pessoal dos males que vêm para o bem, nossos times serem humilhados agora tem como vantagem nos provar que eles estão ainda muito despreparados para a Série
A do Brasileirão; as vergonhosas atuações deixam claro que o Pernambucano não funciona como teste, como parâmetro para sabermos como estão os clubes. Ora, mas
quem precisava tomar de quatro para saber disso?

Faz tempo que torcedores do Sport pedem reforços, que cobram laterais (principalmente pela esquerda), atacantes e meias que possam dividir com Marcelinho Paraíba a responsabilidade de armar as jogadas. Não precisavam serem atropelados pelo Papão na Ilha do Retiro para saberem que é um elenco mediano, totalmente dependente do seu
camisa 10, sem alternativas durante as partidas.

Torcedores do Timbu estão desesperados desde que Cascata, Souza e Rogério se machucaram. Porque era evidente que o Náutico não tinha peças de reposição à altura. Hoje, é um apanhado de jogadores movidos pela garra inacabável do Derley, esperançosos de que Eduardo Ramos – o armador sem coração de boleiro – consiga ser regular, rezando para que os contundidos voltem a campo. Ninguém engoliu a saída do técnico como começo de solução para os problemas do alvirrubro.

Mesmo aqueles que defendem que os campeonatos estaduais têm seu espaço – grupo do qual este cronista faz parte – não são loucos, não são uns energúmenos babando
feito cachorro doido, para defenderem que o Pernambucano é uma competição de nível elevado, que sirva como régua para medir a estatura de nossas agremiações. Nem
mesmo conquistar taça de forma invicta seria prova de coisa alguma. Quem precisa ser estraçalhado na Copa do Brasil para desenterrar essa botija, para ser iluminado com tais
revelações?

Impressionante como todos os anos nossos times repetem os mesmos erros: contratam jogadores medíocres que custam menos, mas que serão peso morto e, portanto,
caríssimo, quando os diretores precisarem buscar reforços que realmente façam diferença. Jogam responsabilidade nos técnicos, na imprensa, nos jogadores, no gramado, na falta de dinheiro... Mesmas intermináveis ladainhas.

Indiscutível que futebol brasileiro é desequilibrado, que clubes como Náutico e Sport entram na corrida nacional como azarões, precisando fazer mágica para superarem times
que recebem dez ou vinte vezes mais dinheiro. O que explica, porém, que alvirrubros e rubro-negros vejam seus jogadores pararem nas marcações de sofríveis zagas do interior de Pernambuco, que sejam ridicularizados por cearenses e paraenses? Acaso Fortaleza e Paysandu fazem parte daquela elite, detentora de vultosas quantias para montar seus
elencos?

Nossos torcedores merecem “acertos que vêm pra bem”, não tomar nas costas os “males” que não trazem novidade alguma, que não oferecem nenhuma vantagem que não pudéssemos vislumbrar de outras formas. Ninguém precisa chegar no fundo do poço para melhorar. Santa Cruz não precisava descer à quarta divisão para provar que tem uma multidão de fiéis tricolores ao seu lado; Náutico e Sport não precisavam passar vergonha para descobrirem a pólvora e trilharem caminhos menos tortuosos.

Nossos torcedores fazem questão sim! E eles não precisam sofrer tantos males, para só depois terem seus pingos de alegrias. Eles querem menos frases feitas, eles gritam por
mais trabalho e inteligência. Será pedir demais?

Cristiano Ramos é jornalista e assina a coluna Na diagonal, que é publicada todas terças-feiras, no Blog do Torcedor.

Nota: O texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Torcedor.